Poucos nomes da história do black metal carregam uma combinação tão intensa de importância musical, atmosfera e controvérsia quanto o Burzum. Criado na Noruega no início dos anos 1990 por Varg Vikernes, o projeto se tornou uma das referências da chamada segunda onda do black metal norueguês, movimento que ajudou a transformar o gênero em um fenômeno internacional.
Ao mesmo tempo, a história do Burzum está diretamente relacionada a crimes graves, incêndios criminosos, extremismo e ao assassinato de Øystein “Euronymous” Aarseth, guitarrista do Mayhem. Por isso, falar sobre a banda exige separar sua relevância artística da trajetória pessoal e das ideologias de seu único integrante.
Como surgiu o Burzum?
O Burzum foi criado por Varg Vikernes em 1991, em Bergen, na Noruega. Diferentemente de muitas bandas de metal, o projeto funcionava essencialmente como uma one-man band: Vikernes compunha e gravava praticamente todos os instrumentos sozinho.
O próprio nome “Burzum” foi inspirado na língua fictícia criada por J. R. R. Tolkien para O Senhor dos Anéis. A palavra significa “escuridão” na Língua Negra de Mordor.
Naquele período, a Noruega estava se tornando o centro de uma nova geração do black metal. Bandas como Mayhem, Darkthrone, Emperor e Immortal ajudavam a construir uma estética marcada por gravações cruas, vocais agressivos, atmosferas sombrias e forte rejeição ao metal mais comercial.
Vikernes rapidamente passou a fazer parte desse ambiente e também teve uma breve participação como baixista do Mayhem.
Os primeiros álbuns
A fase inicial do Burzum é considerada fundamental para entender a evolução do black metal norueguês.
O primeiro álbum, Burzum, foi lançado em 1992. Em seguida vieram Det Som Engang Var (1993), Hvis Lyset Tar Oss (1994) e Filosofem (1996).
Esses trabalhos apresentam características que se tornariam associadas ao projeto: guitarras repetitivas, produção propositalmente áspera, vocais extremamente rasgados e uma atmosfera que frequentemente parece mais interessada em criar uma paisagem sonora do que em produzir músicas convencionais.
O próprio processo de gravação contribuiu para essa identidade. Vikernes optou por tocar os instrumentos sozinho, dando ao Burzum uma sonoridade bastante particular. Entre 1992 e 1993, foram registrados quatro dos trabalhos mais importantes de sua primeira fase.
Filosofem
Entre os discos do período inicial, Filosofem costuma receber atenção especial.
O álbum possui uma abordagem mais atmosférica e minimalista, com músicas longas e estruturas repetitivas. Em vez de depender exclusivamente da agressividade tradicional do black metal, o Burzum explorava sensação de isolamento, melancolia e transe.
Essa característica ajudou a influenciar posteriormente vertentes atmosféricas do black metal.
Aske e a polêmica das igrejas
Um dos trabalhos mais controversos do início do Burzum é o EP Aske, lançado em 1993.
A palavra norueguesa “aske” significa “cinzas”, e a capa apresenta uma fotografia da igreja de madeira de Fantoft depois de ser destruída pelo fogo.
O incêndio de Fantoft ocorreu em junho de 1992 e foi associado à onda de incêndios criminosos que atingiu igrejas norueguesas durante aquele período. Vikernes foi amplamente associado ao incêndio, embora não tenha sido condenado especificamente por esse caso. Posteriormente, ele foi condenado por outros incêndios criminosos contra igrejas.
Os ataques tiveram enorme impacto na imagem internacional do black metal norueguês. Muitas das igrejas eram construções históricas, algumas com centenas de anos.
É importante destacar que esses acontecimentos não devem ser tratados simplesmente como uma extensão da estética musical do gênero. Foram crimes reais, que provocaram destruição de patrimônio histórico e consequências humanas e legais.
O assassinato de Euronymous
A história do Burzum está ainda mais profundamente ligada ao assassinato de Øystein “Euronymous” Aarseth, guitarrista e fundador do Mayhem.
Em 10 de agosto de 1993, Vikernes matou Aarseth em Oslo. Ele posteriormente alegou legítima defesa, mas a Justiça norueguesa não aceitou essa versão.
Em 1994, Vikernes foi condenado a 21 anos de prisão — a pena máxima prevista pela legislação norueguesa na época — pelo homicídio, incêndios criminosos e outros crimes relacionados.
O episódio marcou profundamente a cena norueguesa. A morte de Euronymous, que era uma das figuras centrais daquele movimento, é frequentemente considerada um dos acontecimentos que simbolizaram o fim da primeira fase da cena.
O Burzum durante a prisão
Mesmo preso, Vikernes continuou associado ao Burzum.
Sem acesso aos mesmos recursos utilizados anteriormente para gravar black metal, ele passou a explorar uma sonoridade predominantemente dark ambient.
Dois trabalhos dessa fase são especialmente conhecidos:
- Dauði Baldrs — 1997
- Hliðskjálf — 1999
Esses discos apresentam uma abordagem muito diferente dos primeiros trabalhos. Em vez de guitarras distorcidas e vocais extremos, predominam instrumentos eletrônicos e ambientes sombrios.
Posteriormente, a discografia do projeto voltou ao black metal com Belus, lançado em 2010, seguido por trabalhos como Fallen, Umskiptar, Sôl austan, Mâni vestan, The Ways of Yore e Thulêan Mysteries.
A influência musical do Burzum
Apesar de toda a controvérsia, o impacto musical do Burzum é difícil de ignorar.
O projeto ajudou a consolidar uma abordagem do black metal baseada menos em virtuosismo e mais em atmosfera, repetição, minimalismo e sensação de isolamento.
Elementos que aparecem em seus primeiros trabalhos podem ser encontrados posteriormente em diferentes vertentes do metal atmosférico, dungeon synth e outros estilos relacionados à música extrema.
Isso não significa que a influência musical do Burzum esteja necessariamente ligada às ideias pessoais de Vikernes. É perfeitamente possível reconhecer a importância histórica de uma obra artística e, ao mesmo tempo, rejeitar os crimes e posicionamentos do artista.
Varg Vikernes e as controvérsias políticas
A controvérsia em torno do Burzum não termina nos crimes cometidos durante os anos 1990.
Vikernes também ficou conhecido por suas posições políticas, religiosas e raciais extremamente controversas. Durante a década de 1990, manifestou abertamente ideias associadas ao nazismo e ao extremismo de direita.
Posteriormente, afirmou ter rejeitado o nazismo e passou a apresentar suas ideias dentro de uma visão própria baseada em paganismo europeu, nacionalismo cultural e conceitos que chama de “Odalismo”. Ainda assim, sua trajetória ideológica continua sendo objeto de forte controvérsia.
Por esse motivo, conteúdos sobre Burzum precisam evitar transformar essas ideias em algo exótico ou romantizado.
Burzum: música e legado
O Burzum ocupa uma posição peculiar na história da música pesada.
Musicalmente, seus primeiros trabalhos ajudaram a definir uma estética que influenciou gerações de músicos. Burzum, Det Som Engang Var, Hvis Lyset Tar Oss e Filosofem continuam sendo frequentemente citados quando se discute a evolução do black metal atmosférico.
Historicamente, porém, o projeto também está ligado a alguns dos episódios mais violentos e controversos da história do black metal norueguês.
Essa contradição é justamente uma das razões pelas quais o Burzum continua sendo estudado e discutido. Sua importância para o desenvolvimento de determinado tipo de black metal não apaga os crimes cometidos por seu fundador — da mesma maneira que reconhecer a influência musical do projeto não significa endossar suas opiniões políticas ou pessoais.
No fim, talvez seja mais adequado compreender o Burzum como um fenômeno musical e histórico complexo, inseparável do contexto extremo em que surgiu, mas que não deve ser reduzido apenas às polêmicas de seu criador.
Principais álbuns para conhecer o Burzum
Para quem deseja conhecer a trajetória musical do projeto, uma possível ordem seria:
- Burzum (1992) — apresenta a sonoridade inicial do projeto.
- Det Som Engang Var (1993) — aprofunda a atmosfera sombria e melancólica.
- Hvis Lyset Tar Oss (1994) — importante exemplo do black metal atmosférico do projeto.
- Filosofem (1996) — provavelmente o trabalho mais conhecido e influente da primeira fase.
- Dauði Baldrs (1997) — representa a fase dark ambient produzida durante a prisão.
- Hliðskjálf (1999) — continua a exploração ambiental.
- Belus (2010) — marca o retorno ao black metal após anos sem novos álbuns do gênero.
Conclusão
A história do Burzum é inseparável da história da segunda onda do black metal norueguês. O projeto ajudou a estabelecer uma linguagem musical extremamente influente, especialmente na utilização de repetição, minimalismo e atmosferas densas.
Mas sua trajetória também envolve incêndios criminosos, assassinato e posições ideológicas controversas. Por isso, qualquer análise séria precisa manter essas duas dimensões separadas: a importância histórica da música e a responsabilidade pelos atos e ideias de seu criador.
O Burzum pode ser estudado como uma obra musical influente sem que isso implique romantizar ou justificar a violência e o extremismo que cercaram sua história.


